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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sistemas agroflorestais podem recuperar solos degradados


Foto:Divulgação


O capixaba Miguel Cavalini Calvi trocou a cultura do café no Espírito Santo por uma propriedade de 200 hectares para produzir gado na região da Transamazônica, no Pará, em 1989. Quando chegou à região, a propriedade já estava com metade da área desmatada e hoje a mata não chega a 15%. Nesses anos, Calvi conseguiu criar os três filhos, dois deles já com curso superior, mas tem visto a produtividade de sua terra cair, sem ter mais terra para abrir, como acontece com a maior parte de seus vizinhos.
Como voluntário de um programa da Universidade Federal do Pará, em Altamira, passou a receber estudantes de agronomia, que passam uma semana na casa de agricultores familiares a cada ano.Também com os filhos formados em ciências naturais e agrárias, senhor Miguel, como é conhecido, começou a perceber que a maneira como se lida com a terra na região poderia não ser a ideal. “Acontece que uma terra desmatada há 30 anos, com gado em cima, é muito difícil de ser recuperada”, disse.
Foi assim que topou a proposta de participar do projeto de recuperação de áreas degradadas através de Sistemas de Agroflorestas (SAFs), onde o cacau é plantado em consórcio com outras espécies nativas com potencial econômico. Desenvolvido pelo IPAM, em parceria com a Universidade Federal do Pará e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), o projeto envolve 15 núcleos, nos municípios de Uruará, Medicilândia, Altamira e Anapu, cada um com cinco agricultores. Em cada núcleo, a equipe do projeto faz o plantio de 3.300 pés de cacau numa área de 3 hectares.

Espécies consorciadas
Com financiamento da Petrobras, o projeto está terminando os plantios de cacau, associado a espécies como banana, mandioca e feijão guandu. A ideia é que, após o crescimento do cacau (o que leva aproximadamente três anos), se introduza pelo menos seis espécies nativas da Amazônia e de interesse econômico, como mogno, castanha-do-pará, taperebá, ipê-roxo, ipê-rosa, cumaru, andiroba, jenipapo, copaíba e açaí.
Segundo Sebastião Augusto, professor da Universidade Federal do Pará e responsável técnico do projeto, se espera, ainda, que haja uma regeneração espontânea com outras espécies, que também serão incluídas no SAF. “Queremos recuperar área de pasto degradado transformá-la em agrofloresta. Para que isso aconteça, a primeira coisa é reflorestar. No entanto, o agricultor precisa ter renda e o cacau é uma alternativa”, disse.
Augusto afirma, ainda que a ideia é que o agricultor vá ampliando a área de SAF e a anexe às suas áreas ainda florestadas. “É uma alternativa para a região, que tem um passivo ambiental muito grande e precisa se adequar às leis ambientais”, explica o professor.

Passivo ambiental
Segundo Augusto, o projeto partiu de uma demanda dos próprios agricultores, levantada pelos alunos da universidade durante seus trabalhos de campo. “O primeiro ponto é o passivo ambiental. Quando chegaram aqui, os produtores desmatavam para plantar mandioca e conseguiam mais de 100 sacas de farinha em um hectare. Hoje, com o desgaste do solo, conseguem apenas de 30 a 40 sacas”, explica
O desafio é conseguir, a partir dessa experiência pioneira, trabalhar com os latossolos ácidos e de baixa fertilidade da região. “Havia resistência de plantar cacau nessa área. Um agricultor havia plantado 2.500 pés e mais de 50% estava morrendo em um ano. Começou a procurar informação e passamos a pensar em uma maneira de resolver. Pedimos para abrir área para pesquisa em 2004 e começamos o trabalho, que foi a base para o projeto atual.
O projeto conta, também, com a coordenação técnica do professor Índio Campos, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará, e com apoio da Ceplac, que além do conhecimento técnico, fornece sementes melhoradas. A coordenação geral do é do IPAM e envolve técnicos e estudantes de agronomia da UFPA.
Nos planos do agricultor Miguel está, também, fazer irrigação em sua plantação e chegar a 4.500 pés de cacau. Se conseguir o retorno que espera, pretende diminuir ainda mais a área de pastagem – já está substituindo o gado de corte pelo leiteiro – e plantar milho, cana e um pouco de café. “Quero diversificar. Estou deixando de roçar nas nascentes e próximo aos igapós. Sei que preciso reflorestar”, disse o agricultor.

http://www.ipam.org.br/

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